Casa 70
Algumas das melhores lembranças da minha vida ocorreram na Casa 70
Algumas das melhores lembranças da minha vida ocorreram na Casa 70. Na minha memória de criança, era uma casa em um distrito simples e calmo do interior, com paredes pintadas de azul para quem via de fora, cerca de bambu e uma portinhola de madeira. Tinha um corredor lateral muito escuro à noite, onde os moradores passavam correndo porque, embora a casa fosse um lugar de paz, todos ali sempre tinham uma história de alma penada para contar - o que era comum.
A cozinha abrigava um fogão a lenha e um rádio verde de pilha onde se lia Continental. Nos fundos da Casa 70 havia um galinheiro com um galo, um monte de galinhas e inúmeros pintinhos amarelos. Havia também um chiqueiro com uma capada enorme, sempre cheia de capadinhos pendurados nas tetas.
Na Casa 70 havia uma saleta e, nessa saleta, uma cristaleira dessas muito antigas, cheia de taças de vidro. Embora fossem muitas taças, não me lembro de ver ninguém bebendo vinho ali. Nessa cristaleira também havia muitas fotografias desbotadas coladas no vidro com durex. Era muita gente nas fotos: gente velha, gente nova, gente grande, gente miúda, gente viva, gente morta. Quase toda gente preta.
O banheiro era enorme e não tinha separação. O chuveiro, de onde só saía água gelada, ocupava o mesmo espaço do vaso sanitário. Presa na parede, havia uma prateleira de madeira que armazenava coisas, além de pacotes e pacotes de um papel higiênico cor-de-rosa. Naquela época, as paredes tinham muita lagartixa e teia de aranha; às vezes apareciam pererecas. Neste banheiro, depois de tomar banho, todo mundo tinha a obrigação de passar o rodo e jogar a água acumulada no chão para dentro do ralo.
A sala tinha uma estante de madeira e uma mesa de ferro e mármore no centro. No canto, ficava uma televisão cheia de botões para ligar, passar os canais e alterar o volume. Não existia controle remoto. Ela também precisava de uma antena com palha de aço presa na ponta para que a imagem não tivesse muitos “fantasmas”.
Eram três quartos na Casa 70. Um grande, com cama de casal. Um pequeno, com cama de solteiro, cheio de livros didáticos e um quadro que ocupava toda a parede com o mapa do Brasil dividido por regiões, estados, municípios e territórios1. Eu achava aquele mapa o máximo. Ele me ensinou as capitais e, nele, lembro-me de ter lido pela primeira vez o nome Oiapoque.
Havia ainda um outro quarto na Casa 70, onde eu dormia em uma cama de solteiro. Nele, ficavam também um móvel de madeira e uma máquina de escrever Olivetti. Ao lado dessa máquina - que também era verde como o rádio de pilha -, lia-se uma frase entre aspas num porta-retratos: “José, e agora?”2. Esse quarto era iluminado com uma luz amarela, quase vermelha, que diziam me proteger das mutucas da noite.
A rua onde ficava a Casa 70 era de terra batida. Ali eu jogava boleba3, golzinho e, com a molecada, brincava de Folia de Reis mesmo que estivéssemos em agosto. Ali aprendi a equilibrar minha primeira bicicleta sem rodinha - mesmo que, para isso, antes eu tenha atropelado uma velha vizinha que carregava um tabuleiro cheio de chouriço quente nos braços. Graças a Deus ou a quem quer que seja o guiador do meu destino (e do dela), ela sobreviveu. E o susto serviu para que eu aprendesse a guiar tudo com um pouco mais de cuidado nesta vida, muito mais do que uma bicicleta.
O tempo passou. O distrito há muito não é calmo. As cercas de bambu deram lugar a grades. Ali ninguém mais se senta para contar histórias de alma penada, nem come a comida do fogão a lenha. O rádio de pilha e a máquina de escrever devem ter ido para o lixo. As cristaleiras saíram de moda e não se colam mais fotos desbotadas com durex na porta dos móveis.
O papel higiênico também não é mais cor-de-rosa - e eu, particularmente, acho essa mudança boa. A rua de terra batida deu lugar ao asfalto e não faço ideia do que aconteceu com a molecada que fazia Folia de Reis comigo. Devem ser pais e mães de uma nova molecada que talvez não saiba o que é isso.
As bicicletas sem rodinha viraram mobiletes e agora são autopropelidas. A vizinha velha escapou da morte no atropelamento, mas, enfim, morreu de muito velha, destino este que deveria ser de toda gente boa - como era o caso dela.
O mapa da parede apodreceu depois de uma enchente, mas também já estava desatualizado. O Brasil deve ter ganhado uns 500 municípios a mais e os territórios de lá pra cá também viraram estados.
Pensando bem, além de mim, acho que nada resistiu à passagem do tempo. Nada do grande mundo que era a Casa 70 e seu entorno existe mais. Sua dona, minha avó, também se foi. Restou a memória e a saudade que eu sinto de quase tudo.
* Fotografia de arquivo pessoal restaurada com o apoio de IA.
Até a promulgação da Constituição de 1988, Amapá e Roraima eram territórios, não estados. A Constituição também desmembrou o Estado de Tocantins do Estado de Goiás.
Citação do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, de 1942.
Boleba ou bolinha de gude, a depender da região.




Apareça mais por aqui, camarada. 🫵